No concreto de SP
Na baixa umidade do ar
Como a água sua presença é sentida
Em ausência.
.
Lhe circunda o que se preencheu
Seu formato aqui fossilizado
Para escavações futuras guardo
Seu segredo côncavo.
.
Após percorrerem paredes
A noite traz sussurros
Pelo asfalto, atropelados
pelos túneis, acoados
farfalhando-se nas árvores
misturando-se às pessoas
bichos, metal e vidro
A noite traz sussurros que ecoam
no meu cérebro.
.
E a lembrança, porcelana frágil
Quebra de vez!, irredutível.
Das partes se fazem cacos
Estilhaços sobram poeira
Em memória sem beira, os sussurros
tornam-se gritos
.
Gritam-me a TV, a geladeira
O sofá chora desconfortável
O colchão que você deitou
o travesseiro que pôs a cabeça
chacoalham-me enquanto durmo
e desperto.
.
A torneira pinga muda
A louça suja se ri
De mim, incapacitado
Vestindo-me com o passado
Côncavo no meu peito
Ausência de umidade
Esvaio-me em tosses secas
A atmosfera ressequida e troveja
gargalha-se.
.
O concreto de SP
Fossilizou-me
Eu sou o segredo côncavo
O rombo.





