November 2010
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Di,
Meu amigão! Nunca mais assuste a gente como aconteceu esse ano. TE MATO! Hahahaha. Tudo de melhor e melhor na sua última vida, porque afinal, só nesse acidente você gastou 6, gato. Um beijo, eu te adoro!
Richie.
Felicidade,
Atinja como um trem sobre trilhos.
Richie.
Desde então, eu não posso sentir tal cheiro. Até ontem, antes de comprar qualquer desodorante, eu verificava o cheiro, para não arriscar pegar o errado. Principalmente porque suo muito, e sempre troco o desodorante, experimento todos, posso falar sobre a maioria dos que são vendidos no supermercado. Dos convencionais, sim, Axe é o melhor.
Mas não, ontem, e porque eu estava atrasado, e com muita pressa, ontem peguei dois vidros do primeiro desodorante que vi, saí correndo do supermercado para me arrumar. Depois do banho, passei o desodorante, travei, reconheci na hora, fiquei dois segundos paralisado, pensando o que fazer.
Pensei em dar os desodorantes para um amigo, mas de certo não seria bom sentir tal cheiro nele. Pensei tomar banho de novo, livrar-me do cheiro pelo menos por ora, mas não havia mais desodorantes na casa, e eu já estava severamente atrasado.
Então aceitei, e até agora, o cheiro dele permanece em mim. E quase como um tratamento por exposição, me testo, e muito frequentemente ainda me lembro. Mas ainda, e por algum tempo, o cheiro estará em mim. Que eu seja outro até o fim desses vidros de desodorante.
Miguel,
Desejei secretamente te escrever uma cartinha esse projeto todo, mas nenhuma das opções anteriores parecia adequar-se perfeitamente. E essa, que eu até pensei em pular por achar que não havia um destinatário bom, resolvi dedicar-lhe, depois de uma sugestão do Paulo. Não que minha primeira impressão acerca da sua pessoa tenha sido negativa, e eu até desconfiava além do caráter serioso com que você se aparentava para com o mundo. Mas a razão dessa carta é que, esse mesmo caráter serioso, escondia uma das minhas personalidades preferidas no mundo, de uma proximidade não tão fácil de ser atingida ou construída, mas que quando se atinge…
Nos primeiros dias de nós bixos você não falava tanto. Era para muitos o calouro gracinha, e eu mesmo te achei muito bonitinho, de um blasé que durava até você beber, e se derreter de tanto dançar nas festas. Mas sem bebida, o Miguel carudo voltava, e eu nem me lembro de tratar qualquer coisa com você, até o dia na escada, que você revelou ter intenção de morar comigo e com o Sam, e os próximos capítulos…
Uma das fases mais brilhantes da minha vida. A casa que construímos, celebramos, vivemos, sofremos, e todas as coisas que abarcam O Império da Coisa. Tenho lembranças que me arrepiam a nuca, de nós nos primeiros dias, os três, Sam, você, e eu, enquanto os outros moradores não haviam se mudado. Nós três, sem TV, INTERNET, ou qualquer uma dessas distrações, nós três só com os vinis e livros, nós três nos conhecendo intimamente, na lupa da convivência diária. Acho que já me apaixonei pela sua pessoa nesses primeiros dias, e me dei conta do acerto que era ter me mudado com você. Dias foram que na minha memória têm sabor de felicidade bruta.
O que continua é a nossa história. E por personalidades que não são obviamente feitas para conviver, talvez não nos aproximássemos de outra forma, talvez sim, não importa. O que importa é que em você achei, além do que era óbvio, como a inteligência, a seriedade, achei parcelas sobre humanas de doçura, de compreensão, de romantismo, traços que verdadeiramente me fazem apaixonar pela vida de alguém.
E você é todo assim. Esse Bentinho que vira Britney. E se comporta racional e objetivo, acomodando dentro de si um um louco romântico inveterado. E você sabe que eu amo intimidade, e você me ensinou sobre o respeito na manutenção da própria intimidade. E você sabe que eu amo proximidade, e você me ensinou sobre espaços necessários para a construção da confiança. Nossa relação, não sei se te deixo isso frequentemente tão claro quanto me é, mas nossa relação é das mais construtivas que vivo, mesmo.
Do passado só há saudade, da mais bela, mais pura, mais inofensiva. Da que se tem quando as lembranças retratam vida belamente vivida. Além daqui só há a curiosidade e a esperança, para o decorrer de toda a nossa vida, que ainda engatinha, já que, e apesar de frequentemente nos esquecermos, temos apenas vinte e pouco anos.
Sei que você vive muito em você mesmo, mas agradeço por me permitir nadar na sua superfície. E quando mergulho, eventualmente, é um oceano de maravilhas que encontro. Não têm sido tão frequentes nossas conversas- não as banais, você sabe às quais me refiro- e não vejo problema grande. Há muita tranquilidade em mim sobre o ir e vir da vida, nosso movimento eterno. Mas saiba que te desejo, e penso que isso já seja claro, o melhor do melhor, o amor mais amável, e o mais pleno da felicidade. Acho que se aproximam dias, em que trataremos mais, sobre muitas coisas, aqui no meu sofá, tomando um chá, fazendo qualquer coisa. O resto é travessia, meu amado, por mais cansado que você esteja do meu querido Guima… o resto é travessia.

Richie.
svmg:
Vital,
my old achilles heel,
Doeu muito, muito, muito, mais do que você ou qualquer outra pessoa pudesse imaginar. Intencionalmente, então, transformei meu amor quebrado em ódio intencional, disfarçado com uma falsidade bem-educada. Presenteei-me, inclusive, com uma série de silenciosas…
Raphael Yanes,
Não há palavras dizíveis diante dos atos, dos fatos. Foram alguns os momentos decisivos para as escolhas, e essas foram todas as erradas. As redondamente erradas. As triste, irrevogável e devastadoramente erradas. Devastadoramente!, insisto.
Não há remédio, ou cola, volta no tempo, ou um cabedal de outras escolhas, que possa melhorar as já feitas. Há um silêncio, um eco, um inferno, uma apatia, e o conformismo, apenas o conformismo, para o nosso mundo hoje, os nossos mundos quando se tangenciam.
Foi doloroso ter-me machucado tão estupida e brutalmente por uma das pessoas que eu mais apreciava, confiava e amava no mundo. Crises nervosas me fizeram vomitar. Mas chorar, e isso torna tudo ainda mais doloroso, eu nunca consegui chorar.
Eu mesmo não sabia de todo o mundo que se havia quebrado e mudado em mim, quando lá no começo do ano, ainda em março, quando no fresco de todos os fatos aos quais me refiro. E ainda conversei com você, remontando os fatos, e dizendo o mal que você me fez, e que eu não sabia quando tudo voltaria ao normal.
Pois nunca, nada nunca há de voltar ao normal. Normal é a fase que vivemos agora, e dessa normalidade não há mais de passar. Nunca mais. Nada além da civilidade, da bondade gratuita, da boa convivência.
Não lhe desejo mal nenhum, não desejo a ninguém. É possível afirmar até que lhe desejo o bem, pois é de meu caráter desejar bem às pessoas de modo geral. E, de modo geral, você, como todos os seres humanos, merece felicidade.
Só não estarei lá para celebrá-la, para celebrar-lhe. Para acompanhar sua vida, compartilhar dos seus sonhos, seu presente, seu futuro, e ter-me inscrito no seu passado, sua história. Hoje, vivemos, penso, o epílogo da nossa história. O que sobrou de outrora bela. Sobrou pouco.
Não sei o que você espera em um amigo, e talvez em algum lugar você me ache incrivelmente tolo, ou ache que eu reajo de maneira muito drástica, dramática, mas, se você pensar isso, alivie-se, porque é só sinal de que realmente não nascemos para sermos amigos. Isso torna tudo mais fácil.
Se você não pensar assim, sobra a parte de ti que afirmou, lá em março, quando conversamos na FAU: “fui um monstro”. E sim, você foi um monstro, e seu monstro se deu nas suas escolhas. Monstros escolhem ser monstros. E a bondade é a arma infalível contra nossos monstros pessoais.
Eu mesmo já tive as oportunidades de ser monstro, de maneira muito parecida com a que você foi pra mim. E eu sei como a carência, e eu sei como a tristeza podem nublar a visão. Mas eu escolhi: não ser um monstro!
Daí chego em uma conclusão, que me é recente, e de certa forma, nivela todas as coisas em uma conclusão triste, mas que me parece cabível: você já não gostava mais tanto de mim assim. Talvez nunca tenha gostado de mim, de um modo equiparável ao que eu gostei de você.
E daí tratamos apenas de um engano de perspectivas, do que foi nossa amizade, do que foi nossa relação. E talvez a cumplicidade e a dedicação que eu em amigo dispenso e necessito sejam apenas valores que você não considera em um amigo.
E eu simplesmente não sei ser amigo sem essas coisas. Eu estava preparado para me lançar nas fogueiras do mundo por você. E eu me queimei feio antes de perceber que na fogueira estava eu mesmo.
Não pense que eu te culpo inteiramente, culpa inteira ninguém carrega, e eu levo comigo a minha própria parcela de culpa. Há o terceiro nessa história, você sabe, e talvez você pense que a ele deveria se destinar essa carta, mas não.
Para mim, os laços de amizade são os mais fortes, os mais difíceis de serem quebrados, eu mesmo desfiz muito poucas amizades em toda a minha vida, e é por isso, e infelizmente, que a carta para a pessoa que partiu meu coração da maneira mais drástica é sua.
Há felicidade para você na felicidade dos outros. A felicidade só de dá em companhia. E eu já fui muito feliz por você, muito!, possivelmente em todos os seus momentos de felicidade, enquanto fomos amigos. Feliz por você de uma maneira que poderia suplantar minha própria tristeza. Feliz de uma maneira que você não demonstrou compartilhar da minha enquanto eu estava feliz.
Você não respeitou nem a minha tristeza, e isso foi o derradeiro.

[A Boba.]
Richie.
Lady Gaga,
Eu demorei mais que meus amigos para me render, Gaga, mas quando me rendi: fatal. Na altura do VMA do ano passado minha simpatia por você já era grande, mas foi nessa sua performance de paparazzi, com certeza, que meu coração bateu mais forte junto ao seu.
E houve dias em que eu preferi Katy Perry a você, e sinto uma vergonha que é tão profunda que preciso publicar. Houve dias em que achei que você fosse apenas mais uma, cara de boneca, estranha, mas não, minha cara Gaga, não…
Hoje me pego pensando em você, quando sozinho, dirigindo meu carro, e ouvir Bad Romance me lacrimeja os olhos, por entender que essa não se trata de uma música, mas um zeitgeist formalizado, e, muito obrigado Gaga, por todo seu brilhantismo industrial, fonográfico, e por fim, artístico.
Essa carta também serve pra te dizer : LANCE LOGO ESSA PORRA DE CD PORQUE EU ESTOU COM ÚLCERA NERVOSA DE ESPERAR ESSA PORRA DE BORN THIS WAY SUA PENTELHA DO CACETE TE AMO SUA LINDA!

[Amei seu vestido, bee. Você usa McQueen como ninguém.]
Richie.